Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial.
Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto.

Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou, Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início.
Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa.

378 páginas | Galera Record | Ver no Skoob

“O ódio que você semeia” foi bastante comentado no último ano. Houve uma hype gigantesca acerca desse livro em 2018, principalmente por conta da indignação dos leitores sobre a escassez de sessões de cinema, aqui no Brasil, dedicadas à adaptação deste livro.

A principal razão de toda essa popularidade do livro ficou clara para mim: não se trata tanto de qualidade da escrita ou da história; mas sim, da suma importância da temática abordada no romance.

O início do livro me fez chorar, mas no decorrer da história me decepcionei um pouco com o ritmo narrativo e a abordagem extremamente juvenil que a autora optou para contar a história de Starr e do assassinato injusto de Khalil (tenham em mente que isto não é spoiler, pois é este acontecimento que irá desencadear todos os outros que se desenrolam na história).

Apesar disso, a escrita adolescente da autora não invalida a importância da temática; na verdade, entendi como uma forma de atrair o público jovem e guiá-lo pela leitura de um livro que aborda assuntos tão pesados, como assassinato, violência policial, segregação racial, tráfico de drogas e brigas de gangues.

O paralelo com a realidade brasileira

Sabemos que nos Estados Unidos a segregação racial é tão intensa quanto no Brasil – se não muito mais séria, por fatores históricos mesmo. Porém, a realidade vivida por Starr nos guetos é bastante semelhante à de milhões de jovens brasileiros que vivem nas favelas e convivem diariamente com o tráfico de drogas, as facções, a violência e a desigualdade social.

Uma coisa interessante que aprendi com o livro foi a realidade das gangues. Inicialmente, eu estranhei os nomes utilizados pela autora (como os “King Lords”), pois para mim eles soavam inventados e um tanto juvenis. Entretanto, esse é um assunto em que meu conhecimento é absolutamente nulo – então foi um aprendizado conhecer esse cenário como ele realmente é.

Além disso, como posso julgar os nomes de gangues sendo que aqui no Brasil temos apelidos como Lulu e Zé Pequeno?

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“Meu nome agora é Zé Pequeno, p***!”

Uma protagonista confusa e frágil demais

Starr tem 16 anos, mas os pais a tratam como a um bebê. Ela mesma, muitas vezes, agia como uma criança de 12 anos, mas esperava que os outros a tratassem como adulta.

Não sei foi um problema de tradução (acredito que a leitura no idioma original seja, em casos como o desse livro, mais proveitosa, pois podemos entender na íntegra as gírias e expressões utilizadas), mas algumas expressões acabavam por agravar a ideia frágil e infantilizada da protagonista – como os pais dela chamando-a de “amorzinho”, “boquinha” e “gatinha” o tempo todo.

Estou ciente de que Starr tem dezesseis anos – ainda é uma adolescente -, e presenciar o assassinato de uma pessoa próxima é algo traumatizante o suficiente para fragilizar qualquer pessoa, independente de sua idade. Entretanto, senti que essa confusão e a fragilidade passada ao leitor não condiziam com a ideia de protagonista forte que no final seria necessária para que a ideia central do livro fosse transmitida com firmeza.

Temática muito mais forte que o enredo

O livro começa com um acontecimento chocante, que me fez chorar e refletir muito. Porém, senti como se a autora tivesse dedicado toda a sua energia à essa cena, pois nos capítulos seguintes a dinamicidade se perdeu um pouco.

De fato, senti que nada de relevante acontecia durante várias passagens. Em muitas delas, temos apenas Starr e seus amigos e irmãos sendo adolescentes, vivendo e sendo eles mesmos apensar do acontecimento traumático que deu início ao livro.

Esse tipo de passagem é comum e esperado em livros YA e não me incomodaria de forma alguma se fosse um pouco melhor trabalhado. O problema é que a autora construiu um clima extremamente pesado, para então quebrar essa atmosfera com esses trechos que me pareceram anticlimáticos e um tanto deslocados.

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Uma das referências pop utilizadas diversas vezes pela autora foi a série “Um Maluco no Pedaço”, mas confesso que adorei isso!

Nos últimos capítulos, eu já estava um pouco impaciente para descobrir como tudo acabaria, sentindo uma ligeira vontade de pular alguns diálogos entre os irmãos dela e Chris, seu namorado.

Os choques de realidade

Porém, reitero o que disse no começo dessa resenha – o problema de escrita e enredo da autora não diminui em nada a importância dos temas abordados no livro. Muitos trechos foram – perdoem o uso da expressão já desgastada – verdadeiros tapas na cara. Principalmente para mim, que sou branca e de classe média alta.

É muito fácil assistir ao jornal, apontar para o garoto que foi morto e dizer “Olha aí, um traficante a menos no mundo”, sem sequer cogitar imaginar que ele não era apenas um traficante, mas um ser humano com toda uma história dentro de si. Uma pessoa com família, amigos, com seus desejos, temores, manias, memórias.

Outra coisa que me deu um choque de realidade foi uma passagem em que Starr conta que, quando completou 12 anos, seu pai a puxou para uma conversa – onde ele lhe ensinou como se comportar se for parada por um policial.

– Starr-Starr, faça o que mandarem você fazer – disse ele. – Mantenha as mãos à vista. Não faça movimentos repentinos. Só fale quando falarem com você.

Isso é tão distante da minha realidade! Desde criança, aprendi que os policiais nos protegem. E de fato, eles me protegem porque sou branca, de classe média alta, privilegiada em tantos aspectos que uma realidade onde você precisa se proteger dos policiais é algo inconcebível.

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Já que estamos falando de “Um Maluco no Pedaço”, quem não se lembra do episódio “Mistaken Identity”, onde Will e Carlton vão presos somente por serem negros e estarem dirigindo devagar um carro bacana?

Esse livro traz como principal aprendizado – pelo menos para mim – a empatia. Nós não conhecemos ninguém (talvez nem mesmo as pessoas próximas de nós) o suficiente a ponto de entender as motivações por trás de todas as suas ações e decisões. E a coisa se torna ainda mais complexa, porque essa pessoa pode estar vivendo aquela situação por conta de reflexos culturais e preconceitos impostos pela sociedade, por erros e injustiças que vêm se repetindo há centenas de anos e que estamos apenas ajudando a perpetuar.

Veredito final: 3 ⭐️

Acredito que a história de Starr em busca de justiça por Khalil é importantíssima e deve ser repassada e ouvida. Eu só esperava um maior amadurecimento da autora em relação à escrita e balanceamento dos acontecimentos, mas a mensagem está ali; foi contada e foi ouvida. E torço para que as pessoas se solidarizem e comecem a usar a própria voz para salvar outros Khalils que vivem essa realidade todos os dias.