Íris tem 17 anos e está viciada na novela “Amor em atos”. Ela e sua vizinha, Dona Símia, de 68 anos, não perdem um episódio. Na escola, parece que todo mundo só pensa em duas coisas: na festa de formatura e em perder a virgindade. Só que a vida de Íris está prestes a mudar: Cadu Sena, sua paixão platônica desde a oitava série, está solteiro. Essa é a chance de Íris. Mas antes ela precisa entender o que levou a namorada de Cadu a deixá-lo por uma garota, Édra Norr. Montada em sua bicicleta, Íris vai cruzar São Patrique para descobrir tudo sobre Édra, e não vai demorar para se enredar também nos encantos da garota. A gente sempre acha que sabe por quem vai se apaixonar, mas o amor não é óbvio.

Galera Record | 392 páginas | Ver no Skoob

“O Amor não é óbvio” foi enviado pela maravilhosa Galera Record e veio me ajudar a lidar com a tão temida “ressaca literária”.

Com um ritmo fácil e personagens empáticas e totalmente humanas, Elayne Baeta traz, em seu livro de estreia, uma história apaixonante e que me fez sorrir.

Um ponto extremamente positivo: a própria autora fez as ilustrações da capa e das páginas internas. Fiquei apaixonada!

Cenários e personagens marcantes

A história de Iris Pêssego e Édra Norr acontece em um cenário fictício criado pela autora. São Patrique, apesar de brasileira, é uma cidade que parece ser uma mistura de cidade do interior com litoral, e achei essa vibe bem gostosinha.

Com descrições objetivas mas, ao mesmo tempo, suficientes para criarmos em nossa mente esse clima de cidade interiorana, a autora também aproveitou a liberdade de criar uma cidade fictícia para inserir algumas referências norte americanas, como Baile de Formatura com Rainha e adolescentes no ensino médio dirigindo carrões.

Assim, Elayne construiu São Patrique quase como um cenário de novela ou de série de TV, com alguns lugares que aparecem algumas vezes e se tornam super familiares para a gente, como a escola, o restaurante badalado, a boate. 

Essa familiaridade criada com a cidade e com a história despertam um sentimento de nostalgia quando chegamos ao fim do livro – dá aquele gostinho de saudade quando nos despedimos desse cenário idílico.

Além de São Patrique nos conquistar com suas particularidades, as personagens também são cativantes e extremamente marcantes. Com nomes simpáticos e que também poderiam ser encaixadas em personagens de series de TV (como a protagonista, Íris Pêssego), as persongens são caricatas e clichês até certo ponto, mas de uma maneira legal. Aquela maneira de que criam familiaridade com o que já conhecemos.

O efeito John Green

Uma das personagens que iremos conhecer é Édra Norr, uma garota um tanto misteriosa mas que vai, aos poucos, se aproximando da protagonista e de nós, leitores. 

Achei interessante demais a caracterização de Édra, a começar pela escolha de seu nome e sobrenome. Exótico e marcante, a autora faz com que jamais nos esqueçamos dessa garota, assim como Iris, a protagonista, não consegue parar de pensar nela.

Ainda relacionada à Édra, senti também um certo “efeito John Green”, que costuma endeusar a personagem objeto de desejo da protagonista até o ponto em que nós, leitores, só temos duas opções: nos apaixonar também ou ficar de saco cheio e fechar o livro (no caso de “O amor não é óbvio”, me apaixonei pela Édra. Mas com John Green, eu sempre fico de saco cheio).

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Margo Roth Spiegelman, de “Cidades de Papel” do John Green, é endeusada tão absurdamente pelo Quentin que eu só queria dar umas porradas nele. E nela também.

Outra coisa que senti foi que a autora (muito provavelmente) se inspirou em si mesma para a criação de Édra. Elas são extremamente parecidas fisicamente, e alguns trejeitos são descritos com tanta propriedade que senti que isso pode ser um pouco autobiográfico – o que acho muito bacana e deu um “tchan” na personagem.

Poderia ser só mais um romance teen, mas é muito mais do que isso

Além das personagens e cenários simpáticos, a escrita de Elayne é leve, divertida (ri em voz alta algumas vezes durante a leitura) e olha para algumas coisas sob um ponto de vista diferente e que me cativou demais.

Nunca vou esquecer de uma frase em que ela diz que a luz da geladeira parecia um pôr do sol na vertical, por trás da porta entreaberta. Quem iria reparar numa coisa dessas? Eu amei!

Dito isso, algumas vezes a fórmula da história cai em alguns clichês e pode parecer um pouco fantasiosa e “adolescente demais”. Sob muitos aspectos, “O amor não é óbvio” poderia ser só mais um romance adolescente, mas o fato de ser um livro LGBT com uma história de amor que envolve a descoberta da sexualidade da protagonista dá um tempero especial para a trama.

A descoberta de Íris, os sentimentos que Édra desperta na garota e suas dúvidas e confusão são tão reais que é impossível não se identificar ou solidarizar. A garota busca respostas sozinha, por medo de ser mal interpretada e julgada, e a sua aflição e medo ao se dar conta de que está atraída por alguém do mesmo sexo é algo que me entristeceu de certa forma.

Me entristeceu porque, em romances teens heterossexuais, a descoberta de um novo amor geralmente é algo fácil, sem complicações. Suave, normal. Mas, quando se trata de uma garota se apaixonando por outra, há o medo: do preconceito, da rejeição, da própria descoberta em si.

Veredito final: 4, 5 ⭐️

Justamente por tratar esse assunto de forma tão linda e pura, acho que o romance de estreia de Elayne pode e deve ser lido por todos os jovens – não só aqueles que, como Iris, estão com duvidas sobre sua sexualidade, mas para todos. Porque esse é um romance sobre empatia, aceitação e descoberta. Um romance necessário.