Qualquer planeta é a Terra para aqueles que nele vivem. O alfaiate aposentado Joseph Schwartz desfrutava de uma pacífica caminhada de verão quando, devido a um acidente em um laboratório na mesma cidade, foi involuntariamente transportado milhares de anos para o futuro. Chega então a uma Terra marginal e abandonada, cuja superfície é quase toda inabitável, e que fica às margens de um grandioso Império.
Editora Aleph | 312 páginas | Ver no Skoob
Isaac Asimov é autor de obras notórias como O Homem Bicentenário, a trilogia da Fundação e Eu, Robô, onde ele descreve as leis da robótica:
- 1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por ócio, permitir que um ser humano sofra algum mal.
- 2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
- 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.

Ouch
“Pedra no Céu” é o primeiro romance de Asimov. Apesar de ainda não entrar no campo da robótica, neste livro o autor estabelece o universo do modo como o veremos na trilogia da Fundação. Estamos em um futuro onde o Espaço não é mais um lugar desconhecido e inóspito, e suas milhares de nações intergalácticas se uniram sob o mesmo Império Galáctico. Apesar de cada sociedade seguir suas próprias tradições e costumes, todas estão sob a mesma juridição do Império e devem seguir algumas regras universais.
A Pedra no Céu
Neste cenário, o planeta Terra se tornou um planeta marginal, abandonado, com suas terras inutilizadas por radiação. A população de bilhões de terráqueos foi reduzida a poucos milhões, e com uma tradição aterradora para o controle populacional: todos os terráqueos devem ser executados ao chegar aos 60 anos de idade.
“Para o resto da Galáxia, se é que notam nossa existência, a Terra é apenas uma pedra no céu. Para nós é o nosso lar, e o único lar que conhecemos. No entanto, não somos diferentes de vocês dos mundos siderais; somos apenas mais desafortunados. Estamos apinhados em um mundo morto, imersos entre paredes de radiação que nos prendem, cercados por uma imensa Galáxia que nos rejeita. O que podemos fazer contra o sentimento de frustração que nos consome?”
Assim, os terráqueos são sinônimo de um subpovo. O preconceito que gira em torno da nossa raça é observado nas personagens que são “forasteiros” (ou seja, que não são terráqueos) de uma forma intrínseca e arraigada, da mesma forma que muitos povos hoje olham para outros e se julgam superiores.
Até mesmo Bel Arvardan, uma das personagens principais, que é arqueólogo e tem uma curiosidade acadêmica sobre os terráqueos, carrega uma bagagem de preconceito primitivo em sua mente.
Os terráqueos e o preconceito
“Contudo, não dava para negar que sempre teria consciência do fato de que um terráqueo é um terráqueo. Ele não podia evitar. Esse era o resultado de uma infância imersa em uma atmosfera de intolerância tão completa que era quase invisível, tão absoluta que seus axiomas eram aceitos como uma segunda natureza.”
Mesmo após conhecer Pola, uma terráquea inteligente, bela e corajosa, esses preconceitos ainda moram no fundo da mente de Arvardan. E essa questão de relações intergalácticas – ou até mesmo interraciais – é aprofundada e analisada do ponto de vista das personagens, nos fazendo refletir sobre como isso acontece ainda nos dias atuais. Aliás – como isso ainda continuará acontecendo, já que estamos lendo algo que se passa no futuro.
Viagem no tempo e questões políticas
Além dos aspectos sociais abordados por Asimov, temos também temas clássicos de ficção científica, como viagem no tempo, vivenciada por um simpático alfaiate aposentado. Schwartz vivia tranquilamente em Chicago quando um dia simplesmente se viu nessa nova Terra inóspita, diminuída em sua importância para uma simples pedra radioativa flutuando no céu do Império Galáctico.
A viagem no tempo de Schwartz foi o que desencadeou diversos acontecimentos que levarão a uma trama envolvendo traição, conflitos de raças e muita política. Incrível como Asimov consegue ser tão à frente de seu tempo e completamente contemporâneo, tendo escrito esse romance na década de 1950.
Algumas personagens desse centro político da trama – como o secretário do primeiro ministro, figura marcante – são estereótipos incrivelmente bem aproveitados e construídos.
Em “Pedra no Céu”, temos política, questões sociais e ficção científica entrelaçadas em um enredo dinâmico que não dá para largar, culminando em um desfecho redondo e bem definido, sem pontas soltas. Assim como a trilogia da Fundação, esse livro de Asimov é um exemplar puro do melhor da ficção científica e sempre será, em qualquer década em que o leitor resolver lê-lo.



